Poleiro Elétrico

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Limpando a Estante [Parte 2]

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 24/01/2012

Pra completar a série, mais quatro coisas que passaram despercebidas nos posts de 2011 por motivos diversos. No próximo post, voltamos à nossa programação costumeira com uma obra que mal posso esperar pra resenhar!

Ulysses – James Joyce

Podemos calcular o valor de uma obra puramente em sua capacidade de entreter e de causar reflexão ou devemos levar em conta o ambiente e o histórico da mesma? Devemos aplaudir de pé uma performance que não mais agrada o público apenas por sua participação no desenvolvimento do meio? Esse é o meu dilema com Ulysses.

Escrita por James Joyce nos anos 20, Ulysses foi uma das primeiras obras a popularizar a técnica do fluxo de consciência, onde o livro registra a sequência de pensamentos do protagonista como narrativa da história, tornando-a confusa mas detalhada e um tanto distinta. Tente fazer você mesmo isso: registre cada um dos pensamentos que lhe passa pela cabeça, com todas suas associações, alusões e referências, e tente reler posteriormente. A mente humana é uma bagunça, e a técnica de Joyce registra bem essa característica. Hoje, já é algo mais comum, parte integrante da caixa de ferramentas de muitos autores famosos, incluindo alguns dos meus favoritos, como James Clavell. Raro hoje em dia o autor famoso que NÃO utiliza algo nesse naipe.

Mas o livro não é importante para a história da literatura só pela inovação técnica. A atenção ao detalhe em tarefas cotidianas, que muitas vezes seriam suprimidas de um outro texto, chocou as mentes educadas da época. Como ousa um autor como Joyce descrever em detalhes o ato da defecação, do sexo ou da masturbação? Tido como obsceno e pornográfico, foi atacado por elites puristas no mundo todo, banido nos Estados Unidos e no Reino Unido.

James Joyce, um hipster à moda antiga

Inicialmente tido como controverso em sua terra natal, a Irlanda, Ulysses acabou por ser tão importante para seu povo que acabou por originar o único feriado do mundo dedicado a um livro – o Bloomsday (em homenagem ao protagonista Leopold Bloom), em 12 de junho (a data em que se passa a história do livro).

O livro certamente foi importante, mas devo levar isso em conta ao oferecer meu veredito? Li apenas os dois primeiros capítulos, admito, e por isso não me dignei a redigir uma resenha inteira. Mas o importante é o motivo. Ulysses foi escrito para leitores de sua época – leitores elitizados que sabiam no mínimo falar inglês, francês, grego e latim. Joyce não deixa de inserir pelo menos uma citação em uma dessas línguas a cada duas ou três páginas, como se cada pé-rapado irlandês da época fosse trilíngue. O tão aclamado fluxo de consciência acaba sendo superutilizado em Ulysses, deixando parecer que é mais uma falta de esforço do autor em estruturar uma história do que uma obra de arte que quer transpassar barreiras.

Achei Ulysses revolucionariamente medíocre – acredito que fez sucesso devido apenas ao progresso técnico promovido e ao conteúdo quebrador de tabus, mas sabe o que também foi tecnicamente revolucionário? Cenas de CGI no filme de Golgo 13. Sabe o que também foi quebrador de tabus? Garganta Profunda. Deixo a cargo do leitor decidir se foram bons filmes por conta disso.

Thief of Time – Terry Pratchett

 Terry Pratchett de novo? Eu já tinha resenhado dois livros dele aqui e provavelmente dito tudo o que eu queria dizer sobre ele. Além disso, há centenas de outros autores merecedores do meu tempo e dos quais nunca li nada. Por que ler mais Pratchett? Porque ele é genial.

A sacada deste livro é que, no mundo de Discworld, o tempo é uma commodity,  um recurso energético similar à eletricidade. E assim como a eletricidade, é possível armazená-lo e manipulá-lo. Surgem os Monges da História, uma seita fundada por um cara maluco que descobriu como controlar o tempo de modo a evitar falhas temporais. Sabe a Era das Trevas, que tinha poucos ou quase nenhum documento registrado? Falha temporal. Da mesma maneira, os dinossauros nunca existiram – os monges que inventaram essa história e forjaram os fósseis para preencher uma falha temporal do início do mundo.

Então, um dos vilões clássicos da série, os Auditores, arautos da ordem, decidem que a melhor maneira de acabar com o caos inerente do mundo é parando o tempo – com tudo parado, tudo é previsível, tudo é calculável, tudo está em ordem. E o plano para acabar com o tempo é construir o relógio perfeito, capaz de medir o tempo entre dois momentos, gerando um laço negativo de realimentação que deixaria o universo em parafuso. E isso não é nem 5% da história.

Poucos autores são capazes de costurar mitologia, humor, mecânica quântica e filosofia oriental em um livro só com a habilidade que Pratchett tem. Como eu não quero escrever isso toda vez que eu ler um livro de Discworld, eu fico por aqui.

Sherlock Holmes, The Complete Novels and Stories – Arthur Conan Doyle

Contos de Sherlock Holmes são como um bom vinho. Exigem um paladar particular, envelhecem bem e são cheios de subtons. Também como o vinho, são melhor apreciados em pequenas doses. Comprei a coleção inteira do detetive britânico, em dois volumes enormes da Bantam Classics, e tentei ler tudo de uma vez. Resultado: fiquei bêbado de Sherlock Holmes.

E aí vem aquele problema que, quando você lê muito de um certo autor, você começa a enxergar padrões e descobrir a fórmula do sucesso. Quando o autor é bom (vide a resenha acima do Pratchett), isso não configura um problema, mas quando falta ao artista um talento especial, um valor duradouro, é um tanto doído. Perde-se um pouco da magia, do suspense de uma nova narrativa escrita por alguém cujos neurônios são interligados de uma outra maneira, se ele não é criativo o suficiente para prender a atenção. Isso é um dos motivos que me fizeram parar de ler após terminar o primeiro volume.

O outro motivo é que, bem, a obra original do Sherlock Holmes é um tanto mais decepcionante que qualquer uma das obras que ele inspirou. Até mesmo Dan Brown escreve mistérios mais intrigantes que Doyle, enigmas com diversas peças móveis e combinações inúmeras. Falta nos contos aquele je ne sais quoi que estimula o leitor a elaborar teorias e tentar descobrir a solução por si mesmo. Eu esperava um enredo no nível de Phoenix Wright: Ace Attorney e recebi algo no nível de Assassinato na Rua Morgue (Edgar Allan Poe), onde o culpado por um assassinato que intrigava a polícia a horas é um gorila que fugiu do circo e é mencionado apenas na última página.

Valem os contos mais pelos personagens e sua relação do que pelas histórias – Holmes e Watson são pessoas vibrantes, interessantes, um tanto loucas. Curiosamente, eles não me remeteram de imediato a nenhuma das adaptações, recentes ou antigas, de Sherlock pras telinhas (embora os filmes novos sejam bem mais fidedignos aos livros), mas sim à série House M.D., onde House e Wilson são, não por acaso, o melhor retrato atual da dupla de investigadores da Scotland Yard. A complexa relação e a personalidade de cada um dos personagens é idêntica.

Por eles, acho que eu terminaria de ler o livro. Entretanto, é bem mais provável que, quando minha sede por resolver mistérios bater novamente, eu decida ir assistir Detective Conan.

Assassin’s Creed – Renascença – Oliver Bowden

Tendo jogado o primeiro jogo, gostei da franquia e comprei o livro quando saiu.

Li o primeiro capítulo. Um estilo grosseiro, mais descritivo que narrativo, mais científico que literário. “O autor é ruim”, pensei, “mas de repente a história é boa. Vamos em frente”.

Li o segundo capítulo. Percebi um padrão: a história era uma seqüência de ações desconexas e artificiais, onde era apresentada em cada uma delas uma das habilidades do herói. Correr por telhados, escalar paredes, se esconder em montes de feno, pegar coletáveis, lutar com espada, etc. “Estão querendo estabelecer o que o personagem sabe fazer logo de início, mostrar ao leitor que Ezio Auditore de Florença não foi criado a leite com pêra”, pensei.

Em uma festa com amigos, comentei do livro e dos primeiros capítulos. Alguém respondeu: “ora, mas isso que você descreveu é o tutorial do 2, tirando a parte com o Desmond do futuro”. E fazia sentido. Cheguei em casa, fechei o livro, guardei na estante, comprei Assassin’s Creed 2 na Steam, baixei, instalei e joguei.

Não há mérito nenhum em ler o livro. Ele não é bem escrito, ele não é mais barato que o jogo (R$ 30,00 na FNAC contra R$ 30,00 do jogo no Nuuvem), e corta todo o elemento de narrativa emergente (ALÔ LUDOBARDO) que só o jogo contém. O autor simplesmente foi jogando e descrevendo o que acontecia, desenrolando fatos como um tio bêbado no Natal. O fato da própria narrativa original do jogo não ser grande coisa também não ajuda, mas esse não é o problema. O problema é que ler o livro de AC2 equivale a ouvir uma sinfonia de Dvorak tocada única e exclusivamente por reco-recos – o original ainda está lá, em algum lugar, mas a forma como é apresentada é excruciantemente ruim.

3 Respostas para “Limpando a Estante [Parte 2]”

  1. Tallu disse

    Amor! Vamos baixar e assistir Conan!?

  2. DAIGREON disse

    Livro de jogo em sua maioria é tudo safadeza. E James Joyce é o escritor favorito do Capitão América. LOL

  3. zaolat disse

    @Ulysses: PKD também tem esse péssimo costumo de colocar citações aleatórias e desnecessárias em outra língua frequentemente. Machado de Assis colocava muitas e muitas citações e referências em seus livros, principalmente os primeiros, mas ele tinha um motivo. Qual será o motivo de Joyce? Aparentemente esse é mais um livro importante por dar um pequeno passo além do comum e criticar a sociedade de sua época. Infelizmente foi apenas um passo em direção à defecação, e certas pessoas se apegam demais as críticas sociais, não importa em que época foram feitas…

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