Limpando a Estante [Parte 1]
Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 26/12/2011
Feliz Natal a todos! Este é o primeiro de uma série de posts no qual eu vou “limpar a estante”: falar de livros que li mas que não mereceram um post inteiro, de livros que larguei na metade e de outras coisas que eu eventualmente queria falar.
Hell Screen – Ryuunosuke Akutagawa
Até encontrar a coleção de contos da Penguin Classics, eu não conhecia nada de literatura japonesa, salvo alguns dos nomes mais famosos (Osamu Dazai, Natsume Souseki), e já tinha ouvido falar de Ryuunosuke Akutagawa. Comprei o livreto, crente de que seria uma primeira introdução a um gênero até então totalmente desconhecido.
O primeiro conto, Tela Infernal (地獄変, Jigokuhen), fala sobre um artista talentoso, embora um tanto psicótico, e sua paixão doentia pelo trabalho e pela arte. Acolhido por um importante nobre feudal, a história é narrada do ponto de vista de um outro servo, que deixa derramar na narrativa todos os seus preconceitos e, de certa forma, seus medos também. Curto, menos chocante do que era na época (1918), mas estiloso e delicado. O outro conto, O Fio da Aranha (蜘蛛の糸, Kumo no Ito), é uma fábula sobre um criminoso que foi condenado ao inferno, passando a eternidade a se afogar em um mar de sangue, corpos e outros condenados. Um ser celestial, para compensar o único ato de bondade que esse criminoso praticou ao poupar a vida de uma pequena aranha, decide usar um fio de teia de uma aranha mágica para fornecer ao bandido uma última e frágil esperança de salvação. Mais curto ainda que Tela Infernal (mais ou menos 10 páginas), mas um pouco mais impactante, o grande trunfo da história mais uma vez é o talento de Akutagawa para imaginar cenários terríveis e grandiosos.
Talvez esses dois contos não façam jus ao talento de Akutagawa, talvez eu devesse ler Rashoumon (o primeiro romance do autor) para apreciar melhor a obra e o autor como um todo, ou talvez devesse ler mais autores japoneses para ter uma base melhor de comparação. O fato é que, como sempre, existe muito mais entre o paraíso e o lago de sangue do que imagina minha vã filosofia, e seria ingenuidade da minha parte, por exemplo, criticar a Tela Infernal sem levar em conta o forte tom autobiográfico presente e as metáforas com a vida do próprio autor. Quem estiver interessado pode ler O Fio de Aranha inteiro aqui (é domínio público!), com uma discussão mais apropriada.
The Strange Crime of John Boulnois - G. K. Chesterton
Chesterton não é novo no Poleiro – já resenhei aqui O Homem Que Era Quinta-Feira – então eu já sabia o que esperar dos dois contos dessa edição. Ambos os casos são estrelados pelo personagem mais famoso do autor: Father Brown, um padre sagaz que investiga e resolve os mais estranhos dos casos com uma lógica ainda mais tortuosa. Em The Blue Cross, o clérigo investiga o roubo de uma valiosa cruz analisando as mais improváveis das pistas e cometendo o que, a princípio, parecem atos de pura loucura, para uma conclusão arrebatadora onde tudo faz sentido, deixando o leitor espantado e com um pouco de vertigem. Já em The Strange Crime of John Boulnois, o assassinato de um jornalista de tablóide têm como principal suspeito um cientista polêmico, que prefere levar a culpa pelo crime do que revelar a verdade.
Como n’O Homem que era Quinta-Feira, nada é exatamente o que parece nos contos de Chesterton. Father Brown, entretanto, é um contraponto a toda a loucura labiríntica do enredo, destilando todo o onirismo na narrativa em lógica pura e clara, sem perder a pose e o fleuma britânico. As histórias não tem um apelo duradouro, é verdade, por se apoiarem inteiramente no elemento de mistério do enredo e, assim, perderem toda a graça após a revelação do segredo. Por outro lado, é um mistério tão bem engendrado e meticuloso, e o caminho até sua solução tão labiríntico e interessante, que a experiência acaba por valer a pena. É possível ler estes e outros contos do Father Brown disponibilizados no Projeto Gutenberg (o primeiro está na coletânea The Innocence of Father Brown, o segundo no The Wisdom of Father Brown), ou através da edição da Penguin Books, que não deve custar mais de 5 reais.
Duplo Fantasia Heróica (volumes 1 e 2) – Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo
Estes dois pocketbooks lançados pela Devir reúnem contos de fantasia inspirada na mitologia e na história do Brasil, cada um contendo contos de dois autores diferentes: Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo. Os nomes já denunciam a diferença de origens dos dois (Kastensmidt é americano, embora more no Brasil há vários anos) e, graças a isso, é possível traçar alguns paralelos interessantes das obras dos dois.
Os contos de Kastensmidt fazem parte de uma macrossaga denominada “A Bandeira do Elefante e da Arara”, onde um explorador holandês, Gerard van Oost, faz amizade com Oludara, um escravo africano, e juntos formam uma bandeira para partir em busca de aventuras na mata brasileira. Com uma linguagem mais simples e acessível para crianças, Kastensmidt usa um estilo mais episódico em seus contos, com histórias bem fechadas que raramente exigem leitura contínua e sequencial, mostrando a influência que a publicação em folhetins exerceu sobre seu modo de escrever. Além disso, embora toda a história seja factualmente correta e verossímil, sempre sobra a impressão de que é uma aventura medieval com nova pelagem, com personagens arqueotípicos e criaturas fantásticas que muito derivam dos contos de fada europeus. Por outro lado, Gerard e Oludara são ótimos personagens, bem caracterizados e com motivações e histórias pessoais bastante ricas.
Já os contos de Roberto de Sousa Causo contam a saga de Tajarê, um índio escolhido pelas forças da Grande Mãe-Terra para enfrentar Sjala, uma sacerdotisa viking que aporta na região do Amazonas para tentar libertar Loki. Se Kastensmidt derivou (consciente ou inconscientemente) de lendas européias para escrever as aventuras de sua bandeira, Causo deriva de outras fontes igualmente ricas, especialmente as lendas indígenas e na literatura brasileira. Enquanto o gringo usa criaturas como o saci e o capelobo, que podem ser facilmente associadas a estereótipos europeus (como o leprechaun e o lobisomem), o brasileiro invoca os botos, as amazonas e outros povos e espíritos da floresta. Enquanto um escreve da maneira mais clara possível para atingir todos os públicos, o outro experimenta com seu estilo, incorporando trejeitos do modo de falar indígena e artifícios do movimento modernista. É uma leitura não tão fácil a princípio – as primeiras páginas de um dos contos, que narram uma corrida pela floresta, exigem concentração particular – mas muito mais brasileira. Uma obra que exige mais de seu leitor, para lhe recompensar apropriadamente.
A decisão da Devir de juntar os dois autores em um mesmo volume, afinal, foi um golpe de mestre. O alcance dos dois autores é complementar, um sendo mais simples e divertido, o outro mais elaborado e profundo, e graças a essa sinergia pelo menos um deles agradará o demográfico interessado em fantasia heróica brasileira. Por acaso, também são complementares os personagens principais de cada obra, que representam em conjunto os três povos (europeu, africano e indígena nativo) que formam o Brasil como o conhecemos.
PS: A Devir precisa se decidir se faz uma capa dura decente ou uma edição barata. Pagar caro por uma capa não tão boa é meio frustrante.
A Vida Como Ela É – Nelson Rodrigues
A Vida Como Ela É é uma coletânea de cem contos que foram publicados em sua coluna diária no jornal Última Hora. Por favor, atentem-se para a periodicidade da coluna. Diária. Rodrigues tinha que inventar uma história diferente todo dia para o jornal, que fosse curta e cativante o suficiente, e no menor tempo possível pois, como já fora dito, ele era um cara muito ocupado com peças de teatro, roteiros de filme e similares. Em um ambiente de criação como este, não há espaço para “síndrome da página em branco” e outras doenças do mundo moderno. O problema foi resolvido com metas e constância.
São cem contos de amor, traição, desespero, dor e paixão. Nelson estudou a fundo o cotidiano e os dramas da classe média carioca dos anos 50, e eventualmente viu o Padrão. Os elementos são sempre os mesmos: dois homens e uma mulher, ou duas mulheres e um homem. Outras pessoas não são personagens – são ferramentas. Os personagens podem ser casados, irmãos, parentes ou amigos. O traído pode se matar, ou matar a pessoa amada, ou os dois. E por aí vai. Em posse de todas as pequenas mudanças que acontecem de um caso para outro, passou a escrever uma crônica para cada combinação de parâmetros de entrada, todo dia, repetitivamente, mecanicamente, deterministicamente. Cobriu toda e qualquer possibilidade de drama amoroso do cidadão comum. O livro que tenho em mãos é apenas a parcela mais apta da população de contos gerados por Rodrigues.
É isso que é A Vida Como Ela É, o filtro do produto de um exercício científico diário realizado por um escritor talentoso. Uma obra que acredito ter atrasado a teledramaturgia brasileira em 20 anos, pois não há novela de sucesso da Globo que não seja um apanhado mal-costurado de crônicas deste livro. Não cheguei até o final, é verdade, mas com base nos 70 contos que li, o padrão já era claro o suficiente para poder estimar os outros 30. E agora vejo esse padrão em todos os livros com algum romance que se digne, em todos os dramas amorosos exibidas em novelas e filmes, em todos os problemas que enfrentam as pessoas ao meu redor. A Vida Como Ela É me estragou como pessoa, porque por culpa dele passei a enxergar a vida como ela é – uma equação previsível, uma repetição entediante, um ciclo sem fim das mesmas coisas de sempre.
Odd e os Gigantes de Gelo – Neil Gaiman
Neil Gaiman é possivelmente a única pessoa do mundo que consegue faturar uma cacetada de grana escrevendo contos de fada. Coraline, Stardust e The Graveyard Book foram todos livros ótimos, com pontos fortes para as crianças e para seus pais, e Odd and the Frost Giants não foge à exceção. Menos original e mais derivativo que os outros, Odd é uma estranha mistura de Brasil com Egito de mitologia nórdica com uma pitada leve de… japonesa?
Odd é um garoto manco, filho único, órfão de pai, com um padrasto babaca. Cansado de ser um empecilho para sua vila em um inverno particularmente longo, Odd decide ir morar sozinho na antiga casa de sua família. No caminho, ele encontra uma águia, uma raposa e um urso falantes, que se revelam como as encarnações terrenas de Odin, Loki e Thor, banidos de Asgard e aprisionados em formas animais por terem sido vencidos pelos gigantes de gelo, que tomaram a cidade. Eles pedem a ajuda de Odd para voltar para Asgard e para derrotar os gigantes do gelo.
Ora, mas é uma história um tanto quanto similar à lenda japonesa de Momotarou, o garoto-pêssego. Nessa lenda, um cachorro (o animal forte, o urso-Thor), um macaco (um animal inteligente e sacana, a raposa-Loki) e um faisão (um pássaro, a águia-Odin) pedem a ajuda de Momotarou para derrotar os gigantes de Onishima. Mas é aí que as similaridades acabam. Ao invés de Momotarou, Odd não vence os gigantes pela força bruta, mas pela sagacidade, um conceito recorrente nas lendas nórdicas. Além disso, uma série de minúcias retratadas no livro remetem a lendas famosas dos Eddas, que fazem qualquer interessado no assunto abrir um sorriso durante a leitura (ou rir pra caramba quando Thor tira sarro de Loki por causa da lenda do nascimento do Sleipnir). Só não espere nada muito profundo como os romances mais sérios pro autor – Odd é um livro feito pra você ler pro seu filho quando ele for dormir.
(continua na parte 2 a ser publicada provavelmente em Janeiro!)
Israel Crisanto (@icrisanto) disse
lol Pro comentário de a vida como ela é! Tomara que não tenha te estragado mais do que já era (ahushaushuas)! E pra mim, ela era apenas uma série da globo, não um livro com base em um estudo @_@ Legal essa nova seção! Agora já pode comentar xogun, casa nobre etc \o\o\o\o\o\o\o\
Bebs disse
Comentário aleatório de designer: acho tão lindas essas capas mega-minimalistas dos mini Modern Classics. *-*
A Bandeira do Elefante e da Arara » Poleiro Elétrico resenha A Bandeira disse
[...] melhor para resenhar A Bandeira do Elefante e da Arara do que Yuri ‘Arara’ Oliveira Petnys do site Poleiro [...]