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[LIVRO] O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 20/12/2011

Livro: O Jogo do Exterminador

Autor: Orson Scott Card

Editora: Devir

Existe um conceito em literatura chamado verossimilhança. É a propriedade de uma obra de convencer seu leitor de que a mensagem que está transmitindo é crível, de causar em seu espectador a suspensão de descrença. É diferente do realismo, pois uma obra pode ser verossímil sem ser realista – e isso se aplica especialmente à ficção científica, onde cenários envolvendo tecnologias muitas vezes impossíveis são aceitos sem problema algum. A verossimilhança é uma característica de suma importância, mas fragilíssima também: basta um deslize e a ilusão de imersão do leitor é quebrada, que coça sua cabeça e pensa: “Puxa, mas isso não faz o menor sentido”. É um dos problemas que eu tive com A Mão Esquerda de Deus e com o começo d’O Jogo do Exterminador. Entretanto, se o primeiro tinha vários outros defeitos que só acentuavam sua má qualidade, O Jogo do Exterminador é bom o suficiente para compensar esse fato.

Em O Jogo do Exterminador, acompanhamos a saga de Ender Wiggin, um jovem prodígio de SEIS anos que é convocado para uma escola de treinamento de cadetes militares para gênios mirins, localizada em uma estação espacial internacional na órbita da Terra. Nela, os comandantes fazem de tudo para enrijecer Ender, forçando-o a superar obstáculo atrás de obstáculo, alienando o garoto com o propósito único de criar um comandante genial o suficiente para repelir a próxima onda de ataque dos “abelhudos”, seres alienígenas que já atacaram a Terra duas vezes e foram derrotados por uma milagrosa (e secreta) manobra militar. Enquanto isso, na Terra, os irmãos mais velhos de Ender, que TAMBÉM são absurdamente geniais, bolam um plano para impedir que a ordem mundial culmine numa WWIII se a guerra contra os aliens realmente chegar ao fim e as alianças militares, desfeitas.

Não preciso dizer que eu realcei os pontos exatos do livro em que minha suspensão de descrença foi pro espaço. Acreditar que um garoto de seis anos é tão inteligente que consegue elaborar estratégias complexas e efetuar potenciações múltiplas de cabeça é forçar tanto a barra que Card já alerta preventivamente no prefácio:

“‘Elas simplesmente não falam desse jeito’, ela disse. ‘Elas não pensam desse jeito’. (…) O Jogo do Exterminador perturba algumas pessoas porque desafia as suas crenças sobre a realidade. (…) Eu sabia que essa era uma das coisas mais verdadeiras sobre O Jogo do Exterminador. (…) Em toda a minha infância, nunca me senti como uma criança. Eu me sentia como uma pessoa todo o tempo – a mesma pessoa que sou hoje. Nunca achei que falasse de maneira infantil. Nunca achei que minhas emoções e desejos fossem, de alguma forma, menos reais do que as emoções e desejos adultos.

Eu acredito que há um erro conceitual bem claro no argumento de Card: é possível analisar as emoções e sentimentos das crianças de uma perspectiva adulta e argumentar que as crises enfrentadas por ambos são essencialmente a mesma coisa; entretanto, o conhecimento, a experiência e a carga cultural que formam a maturidade de um cidadão e lhe permitem tomar decisões com mais propriedade NÃO é algo que toda criança é capaz de fazer. Mas tudo bem. Eu posso me forçar a crer que existem algumas pouquíssimas crianças absurdamente geniais no mundo. Aí Card me apresenta uma escola onde CADA criança de seis anos é adulta o suficiente para entender regras de batalha, trigonometria e organização militar. OK, vá lá. A população da Terra aumentou tanto que há leis de contenção familiar, cobrando pesadas taxas de pais com mais de dois filhos (Ender é chamado pejorativamente de Terceiro por seus antigos colegas de escola). Se a população aumentou tanto assim, então a chance de uma criança genial nascer aumenta, certo? Mas é aí que somos apresentados aos dois irmãos (não muito) mais velhos de Ender, que são tão geniais quanto ele, e é aí que eu desisto de tentar achar explicações e simplesmente aceito em silêncio.

Falhar na suspensão de descrença não faz com o que o livro seja ruim, mas certamente prejudica a experiência.

O problema é que o livro está LONGE de ser ruim. O desenvolvimento de Ender ao longo dos anos é um curioso retrato psicológico exacerbado da deformação que o treinamento militar exerce sobre seus soldados, mesmo sobre os mais brilhantes e conscientes. Paranóia, agressividade, depressão, cansaço passam a integrar o cotidiano do garoto sobre o qual repousa toda a esperança da raça humana, treinado para não confiar em ninguém a não ser em si mesmo, condicionado a acreditar que está sozinho seja a situação em que se encontre, e que força superior alguma vai salvá-lo do perigo.

Também é incrível ver o quanto Ender’s Game, que foi escrito em 1985, acertou sobre a tecnologia do futuro. Ender e seus colegas usam tablets para estudos (com telas monocromáticas verde-fosforecentes, mas tudo bem). Dentre os vários jogos que Ender joga, temos um simulador de caças, um RTS espacial cooperativo e um MMORPG com mundo persistente que cria cenários baseados em leituras da mente do jogador. Card também enxergou um futuro onde as grandes discussões do mundo realizam-se em fóruns de internet, fato que os irmãos de Ender aproveitam para, com seu extenso conhecimento de filosofia e história, manipular os grandes players do cenário político mundial e se estabelecerem como grandes pensadores usando pseudônimos. Justo, já existiam BBS’s em 1985, mas duvido que muitos vislumbrassem o potencial da mídia para discussões internacionais e para o anonimato.

Com boas reviravoltas, personagens bem-construídos e uma narrativa bem criativa, Ender’s Game tinha tudo pra ser um livro perfeito. Mas não é, porque seu autor insiste em forçar o leitor a acreditar que crianças de seis anos seriam capazes de fazer o que fazem no livro, sacrificando a verossimilhança para tentar alcançar um impacto maior com a crueldade e as agruras que seu protagonista suporta, além de glorificar seu ego ao dizer que inspirou Ender em si mesmo. Na minha opinião, a única mudança que tornaria Ender’s Game um livro perfeito seria aumentar a idade do protagonista para pelo menos 15 anos. Mas se o protagonista tivesse 15 anos, aí Ender’s Game seria Gundam 0079.

PS: Card é um bom escritor, mas um babaca de modo geral (essencialmente por ser um mórmon homofóbico ativista). Isso não me impede de gostar da obra dele, e não deve impedir ninguém.

PPS: As capas da Devir são FEIAS. A tradução é firmeza, mas as capas… Por outro lado, é difícil achar uma capa de Ender’s Game decente, dado que a grande maioria é horrenda.

3 Respostas para “[LIVRO] O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card”

  1. Daigreon disse

    Pois muito bem,agora que leu Ender’s Game,tem que ler Speaker for the dead (O orador dos mortos),que tem capas ainda piores. Aliás,já que cê citou como o Card é trouxa e bocó,noto que vários caras geniais são otários,tipo o Scott Adams (Dilbert),o Alan Moore e o John Byrne.

  2. falleco disse

    Vish, sei q eh um pecado mas eu pularia esse livro soh pelo titulo haha. Porra yuri bc le mto e em mto pouco tempo. Ja nao dar pra acompanhar haha e a lista continua crescendo

  3. zaolat disse

    Saudações

    Eu também sempre me senti como uma pessoa, e não sei como poderia me ver de uma outra forma. O problema é que quando eu era criança eu pensava em mim com uma mente de criança, então é natural que para esta mente eu já fosse bastante adulto. Agora que não sou mais criança posso olhar para trás com outros olhos e entender que o autor esqueceu de considerar sua mente infantil em seus cálculos atuais.

    E é claro que as emoções e desejos de uma criança são tão reais quanto a de um adulto, sem dúvidas. Mas não estamos aqui falando de realidade, e sim de verossimilhança.

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