[LIVRO] Dancing with Eternity, de John Patrick Lowrie
Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 28/11/2011
Livro: Dancing With Eternity
Autor: John Patrick Lowrie
Editora: Camel Press
Em um gênero dominado por distopias, pela opressão em escala global e universal e pela deterioração das relações e até mesmo dos sentimentos humanos, é difícil encontrar algum livro que faça crer que o futuro seja “bom”. É como se o sistema econômico e social mundial fosse uma máquina instável, pronta para explodir em alguma direção e sem ninguém para tomar as rédeas da situação. Mesmo em um ambiente um pouco menos radical e mais realista, como o Sprawl de William Gibson, temos megacorporações que ocupam cidades inteiras, implantes cibernéticos que desumanizam seus usuários e um clima geral de que os esforços conjuntos de bilhões de pessoas foram um fracasso. E talvez por isso o universo de Dancing With Eternity seja um mundo curiosamente inovador – só por apresentar um universo em que, bem, não é tão ruim assim viver.
Em algum momento do século XXV, quando a humanidade começava a colonizar Marte, avanços tecnológicos nos campos de tecnologia da informação e biociências descobriram uma maneira de “dumpar” toda a informação de um ser humano em computadores, e de reconstruir o corpo a partir dela. É óbvio que esse processo leva algum tempo, mas o surgimento de biochips implantados diretamente na nuca e uma rede de informações com transferências brutalmente rápidas permitem realizar o processo em alguns milissegundos. Isso permite virtualmente que qualquer pessoa torne-se “imortal”, de um modo parecido com o que é proposto pela filosofia hinduísta, em um ciclo de infinitas reencarnações.
Entretanto, o processo é caro, e o cidadão comum não tem como pagar uma taxa astronômica a cada século ou dois. A solução alcançada funciona como uma espécie de empréstimo: você se aluga para os “works”, eles renovam o seu corpo, você trabalha durante 60 anos e, ao final do período, tem sua memória do período apagada, seu corpo renovado novamente e ganha créditos o suficiente para aproveitar a nova vida. É um ciclo kármico, onde você trabalha uma vida inteira para ser recompensado na vida futura.
No fim das contas, o impacto maior dessa revolução tecnológica é a imortalidade, e todos os grandes temas do livro giram em torno dela. Contando a história do ponto de vista de Mohandas, um engenheiro ambiental que presenciou o começo dessa revolução e ainda está vivo 1500 anos depois, ele mais que ninguém consegue apontar diferenças que, para os personagens da época, são as coisas mais comuns do mundo. Não há mais tabus sexuais no século XL, em parte graças a uma tecnologia cujos usuários conseguem sentir todas as emoções do próximo e se comunicar em um nível mais elevado, mas também porque todas as convenções sociais familiares também foram por água. Ninguém mais morre, ninguém mais nasce. As empresas às vezes encomendam “novatos”, humanos nascidos em incubadoras e educados estritamente por empresas profissionais até seu amadurecimento, mas isso é raro.
Outros desdobramentos da tecnologia são ainda mais interessantes. No passado, movimentos feministas contestavam a sociedade machista que se instalara, mas ambos os lados não tinham escolha a não ser conviver em conjunto pelo futuro da espécie. A imortalidade e os novatos mudam esse panorama irreversivelmente, culminando em uma guerra intergaláctica e a criação de uma nação estritamente feminina na constelação das Plêiades. Outros grupos, firmes em suas filosofias religiosas, acreditam que a imortalidade impede que o homem se una a Deus em seu pós-morte, e criaram sua própria nação em um planeta isolado chamado Éden, onde as pessoas envelhecem e morrem, para espanto e incredulidade do resto do universo.

No mundo de DwE, as pessoas trabalham uma vida inteira para compensar os erros que cometeram em sua vida livre, remetendo ao conceito hindu de karma (e não o conceito dogbertiano).
O enredo em si não é a atração principal, mas sim um meio através do qual o autor descreve o universo. Mohandas é contratado por uma mulher misteriosa para participar de uma expedição clandestina a um planeta proibido, o Planeta de Brainard, onde aparentemente há uma forma de vida alienígena que vive eternamente sem precisar de “reboots”. o enredo vai pouco a pouco se intensificando, expondo os segredos de cada tripulante e construindo relações entre eles.
Mais do que ser bem-escrito ou interessante, eu acho que um bom livro tem que ser memorável – possuir cenas marcantes que inspiram a emoção do momento só de lembrar. Dancing With Eternity, além de ser bem-escrito ou interessante, possui mais que um punhado dessas cenas. Só o capítulo que se passa em Éden já me faz querer ler o livro de novo, e isso é mais do que eu posso dizer da maioria dos livros que li este ano. Nada mal para um novato em seu primeiro romance, não é?
PS: Sabia que o autor é o dublador do Sniper em Team Fortress 2? Foi assim que eu acabei descobrindo o livro, mas ele é tão bom que eu não achei pertinente incluir isso em lugar algum.
PPS: Ele é casado com a GLaDOS.
João Vitor Cardoso França disse
Bacana, meu caro Yuri.
Não li o livro e não sei se vou ler, mas li a sua crítica e me interessei.
GJ.
DAIGREON disse
Sério que foi o dublador do Sniper?
Isso por si só já obriga o livro a ter um manolo com sotaque australiano hardcore.
falleco disse
Legal. Historia bem diferente. Vou ver se compro pra ler.
Baleiro disse
Muito bom!!!!
Bebs disse
Ah!
Algumas semanas atrás eu descobri esse livro e pensei em te perguntar se você tinha lido, o que achou e tal… Mas acabei esquecendo! Gostei que rola todo um Samsara digital, vou pegar pra ler. hohoho
=D