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[LIVRO] Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 19/10/2011

Nome: Tropas Estelares

Autor: Robert A. Heinlein

Editora: GRD

Há muito a ser dito sobre a tradução de uma obra para um meio artístico diferente do qual ela foi concebida. Toda arte que se preze carrega consigo um quê autoral, a impressão digital de seu criador. Infelizmente, como em todo tipo de tradução, esse não é um processo sem perdas, e quem quer que converta a obra acaba deixando para trás um pouco do original. Tropas Estelares é possivelmente uma das maiores vítimas disso, uma obra de sociologia especulativa e ficção científica hardcore cuja marca no imaginário do cidadão padrão do século XXI é a de soldados atirando em aranhas.

Em algum momento do século XX, as tensões entre diferentes blocos internacionais eclodiram em uma Terceira Guerra Mundial, trazendo todo tipo de catástrofes para o mundo. Eventualmente, o Bloco Ocidental venceu, mas não sem suportar infindáveis perdas. E quando os generais, capitães e sargentos da guerra deixaram o front e voltaram para suas terras natais, encontraram algo ainda pior: um sistema político falido, ocupado por políticos corruptos e dominado por criminosos. Foi então que, primeiro na Irlanda e depois em outros países, diversos levantes das Forças Armadas levaram os heróis de guerra ao poder, estabelecendo governos militares pelo mundo todo. Neste novo governo, apenas possui poder de voto quem serviu ao seu país por pelo menos dois anos, restringindo as decisões de cada país às poucas pessoas que por ele arriscaram suas vidas.

Séculos se passaram desde então, e a humanidade começou sua expansão pelo espaço, colonizando outros planetas do Sistema Solar e de sistemas vizinhos. Juan Rico é um terráqueo que, prestes a completar 18 anos, não sabe bem o que fazer da vida. Filho de um pai civil (e portanto que não é um “cidadão”), ele fica dividido entre tentar a cidadania e se acomodar em uma vida pacata, e se decide por impulso ao descobrir (pasmem) que uma garota bonita de sua sala também vai se alistar. Juventude, vai entender. E a partir daí, Johnny vai enfrentar um treinamento árduo, feito para ceifar do Exército quaisquer pessoas de índole fraca e moral duvidosa, para tornar-se um membro da Infantaria Móvel, um novo braço do exército especializado em utilizar armaduras computadorizadas capazes de ampliar exponencialmente as capacidades de um mero soldado.

Familiar, esse conceito? Tropas Estelares é o livro que criou o estereótipo do Space Marine, o soldado do exército equipado com uma armadura que lhe permite fazer muito mais que um simples humano comum, e a lista de obras que agregaram este conceito é infinita. O que difere o soldado de Heinlein de um soldado espacial comum é que, diferentemente de tanques e canhões e mesmo pistolas, onde a eficiência de uma arma depende muito mais do equipamento em si, essa armadura é basicamente uma extensão do humano, e exige disciplina e dedicação para se tornar realmente eficiente em batalha. Daí ele ser um conceito que combinou tão bem com a mídia emergente dos videogames, onde o Space Marine apareceu em obras de todas as épocas, desde Doom e Starcraft até os Spartans de Halo, que são praticamente copicolas do original. Além disso, Infantaria Móvel, Trajes Móveis… Mobile Suits? A franquia Gundam também foi largamente influenciado pela obra, que revolucionou o mercado de desenhos japoneses ao trazer um robô que não é superpoderoso por si mesmo, não possui armas mágicas esdrúxulas nem obtém seus poderes de figuras mitológicas, mas sim funciona como uma ferramenta de guerra, cuja utilização depende essencialmente do piloto.

Um soldado Spartan de Halo, uma representação um tanto quanto fiel de como seria um soldado da Infantaria Móvel do livro

Seria muito fácil para um autor de ficção científica centrar nesse conceito inovador e dedicar o livro às aventuras dos Rudes de Ranczak, o pelotão de Rico, mas Heinlein tinha anseios muito mais profundos. O cerne de Tropas Estelares não são as armaduras, mas sim a jornada de amadurecimento de Rico, a história de como um garoto indeciso tornou-se um importante líder militar e as lições de moral que aprendeu no caminho e que formaram seu caráter. É uma história velha com uma roupagem nova e uma execução detalhada: o jovem é um nada, relutante, que acaba aceitando seu destino devido a fatos marcantes e termina tornando-se um herói. Um livro de ficção científica com conceitos inovadores e um personagem marcante e bem-desenvolvido? Quem diria, hein?

Mas não pára por aí. Entrementes na história estão as aulas de moral e civismo ministradas tanto pelo ensino básico quanto pelos sargentos de treinamento e, posteriormente, pela Escola de Cadetes. Nessas aulas, os professores refletem sobre a formação e o funcionamento da estrutura política atual e passada, em geral envolvendo temas como responsabilidade social e o equilíbrio tênue entre direitos e deveres. Embora fique meio óbvio que eles funcionam como uma espécie de Metatron para o autor, o que interfere na imersão do texto, são diálogos interessantes, pontos de vista bem-construídos, ainda que falhos. A sociedade de Tropas Estelares figura entre uma utopia platônica e uma distopia orwelliana, onde seus integrantes vivem em relativa paz e tranquilidade às custas de total falta de poder político.

Heinlein também escreveu Stranger in a Strange Land, uma das mais populares obras de FC do mundo e uma das inspirações pro movimento hippie dos anos 60

Para explicar o sucesso estrondoso do modelo político que propõe, Heinlein argumenta  que o serviço militar incute valores morais e responsabilidades em seus soldados, e isso os torna cidadãos mais preocupados e bons políticos. Não é uma discussão das melhores, visto que todas as pessoas que tocam no assunto são militares e, portanto, possuem um viés explícito sobre o assunto. Eu pessoalmente discordo que uma sociedade assim funcionaria, argumentando, por exemplo, que a força de um sistema político reside na limitação do que as pessoas podem fazer de PIOR nele, e nada impediria um maníaco de conseguir tornar-se um soldado e eventualmente cometer atrocidades no governo, mas ainda é um ponto plausível e digno de reflexão.

O treinamento de Rico culmina na guerra com os insetóides, uma raça de seres aracnoformes. Os insetóides são inteligentes, capazes de construir e operar naves interestelares e de disparar armas, e vivem em uma sociedade não muito diferente de uma colônia de abelhas. As duas raças se encontram em meio às suas respectivas expansões populacionais, e fica claro que os interesses conflitantes e a falta de comunicação impedem que a situação seja resolvida por outro meio que não a violência. Nisso, surge uma reflexão profunda: ao alastrarmos nossa herança genética por mundos a fio, não somos diferentes de uma raça visualmente nojenta de alienígenas – as motivações, os objetivos são os mesmos. Somos uma praga para a galáxia tanto quanto os insetóides o são. E o treinamento pelo qual Johnny Rico passou o impede de ver a situação de outra forma – a única solução que enxerga é o extermínio, o único resultado que lhe interessa é a supremacia humana. Entre acreditar que isso é uma crítica velada ao militarismo e entender isso como uma expressão da filosofia do Destino Manifesto estadunidense, eu fico com a segunda opção.

Uma obra de ficção científica, um livro sobre o nascimento de um herói, um tratado de sociologia, um conto panfletário pró-guerra. É possível enxergar essas e outras nuances (como as analogias com a Segunda Guerra Mundial) em Tropas Estelares, e é isso que o torna um livro tão rico e interessante. É uma pena que ele seja conhecido pelo mundo inteiro apenas como “aquele filme em que a barata gigante vem e mata os soldados”.

Bônus: Possívelmente o melhor vídeo misturando Starship Troopers e Gundam de todos os tempos


4 Respostas para “[LIVRO] Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein”

  1. Leitor disse

    Muito bacana o post, Yuri. Passei aqui pra dar uma lida pois gosto muito de ficção científica. Até hoje estou para ler o Duna, recomendado por você.

    E um dos motivos pelos quais eu gosto de ficção é a tendência que tais livros têm de comportar ensaios filosóficos e sociológicos, mas, ao mesmo tempo, manter uma trama “comercial”. Ou seja, eles conseguem não ser nem muito chatos, nem muito burros.

    O último livro de ficção que li possui uma carga filosófica muito forte: Solaris. É um livro pequeno, mas muito inteligente e instigante. Recomendo. O centro da discussão é sobre a consciência.

    E aí, já começou a ler o Song of Ice and Fire?

    Abraços.

    • Leitor disse

      Onde eu escrevi apenas “ficção” leia “ficção científica”.

    • Interessante esse Solaris, vou dar uma olhada!

      Ainda não comecei o Song of Ice and Fire, e não sei se vou começar tão cedo. Ainda tenho alguns livros com prioridade mais alta na fila (como Ulysses do Joyce e Ender’s Game do Card) e como são vários livros extensos, estava pensando em deixar para ler tudo de uma vez no recesso de fim de ano.

      Valeu pelo comentário!

  2. Depois de ler isto, estou decidido a ler esse livro e mudar minha visão do “filme dos insetos homicidas”. Muito interessante!

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