Poleiro Elétrico

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[LIVRO] A Mão Esquerda de Deus, de Paul Hoffman

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 24/08/2011

Livro: A Mão Esquerda de Deus

Autor: Paul Hoffman

Editora: Suma de Letras

A diferença entre uma atividade difícil e uma atividade trabalhosa é que, enquanto a primeira exige habilidades e conhecimentos, a segunda exige apenas tempo e dedicação. E eu acredito que, se escrever um livro genial é uma atividade bem complicada, escrever um livro decente é meramente um triunfo da paciência e do comprometimento. Uma dose de cultura sempre é bem-vinda, críticas externas certamente são essenciais, mas qualquer livro bom surge principalmente porque alguém pensou em uma história legal, sentou no computador e escreveu. Não tem tanto segredo: qualquer livro de ficção infanto-juvenil tem elementos básicos facilmente identificáveis e reproduzíveis, e não é à toa que exista tantos “livros tipo Harry Potter” no mercado hoje. A Mão Esquerda de Deus é um exemplo claro de alguém que tentou seguir a onda de qualquer jeito, mas ficou a ver navios.

Num mundo que nunca fica bem especificado se é o nosso mundo, uma dimensão paralela ou algo totalmente diferente, existe uma fortaleza no meio do nada comandada por um grupo de religiosos que se auto-denominam Redentores, cultistas de uma seita que gira em torno do Redentor Enforcado, um homem que morreu pelos pecados da humanidade. Essa fortaleza serve de posto avançado na guerra contra os Infiéis que, diz-se, seguem o Antirredentor e são pessoas horríveis, ou algo assim. Cale é um dos garotos da fortaleza, treinado para ser um soldado e orientado pessoalmente pelo general dos Redentores por possuir um dom especial: graças a uma pancada que levou na cabeça, ele agora consegue prever os movimentos do adversário e isso o torna uma ferramenta muito útil no campo de batalha. Pois acontece que, ao se embrenhar com dois amigos em lugares proibidos do castelo, ele acaba vendo o que não devia, mata sem querer um dos chefões e foge em uma seqüência espetacular que envolve um adubo mágico que esconde seu cheiro.

Paul Hoffman, where's your curly moustache?

Não dá. Mil perdões, mas não dá pra levar a sério esse livro. Tá tudo errado, porra.

O que um livro infanto-juvenil precisa? Primeiro, de um protagonista decente. Toda a idéia da produção cultural voltada para esse mercado é fornecer role models com os quais as crianças tendam a se identificar e, através das aventuras, representar o crescimento e o desenvolvimento do mesmo. É a jornada da adolescência, o herói relutante que aceita seu destino e enfrenta seu desafio. Harry Potter não fez sucesso por acaso: os sete livros da J. K. Rowling acertaram em cheio essa questão. Qualquer estudante de Literatura vai saber explicar isso melhor do que eu e dar exemplos muito mais profundos. Então, se o desenvolvimento do protagonista é algo tão importante, como é que Paul Hoffman conseguiu errar da maneira que errou?

Cale é apresentado como um garoto estóico, no sentido mais puro da palavra. Apanha sem reclamar de seus superiores, evita fazer amizades. Não que ele não tenha sentimentos – ele apenas aprendeu a contê-los muito bem, o que faz sentido em um garoto que vive uma rotina espartana desde que se entende por gente. Quando ele sai da Fortaleza, entretanto… Sua personalidade muda completamente. Cale fica impulsivo, emocional, irracional até. Hoffman parte de uma premissa interessante – um garoto isolado da sociedade desde que nasceu – mas falha em desenvolver seu potencial. Cale esquece tão rápido dos costumes e da rotina de seu antigo lar que parece ter passado apenas alguns meses lá, e não sua vida inteira.

Um erro crasso no desenvolvimento do personagem me irritou particularmente. Veja, quando Cale chega à cidade, ele se apaixona à primeira vista por uma garota, Arbell Materazzi, tida como a garota mais linda da cidade. A idéia de um garoto, que viveu em uma sociedade voltada exclusivamente para a guerra desde que nasceu, demonstrar interesse pelo sexo oposto DIAS depois de sair dela já é algo discutível, mas vamos aceitar por enquanto. Arbell tem o apelido de Pescoço-de-Cisne e o autor, preguiçoso que só, descreve-a assim: “Como ela era? Bom, imaginem uma garota com um corpo de cisne”. Corpo de cisne? Ela é gorda, pescoçuda, nariguda e com bracinhos pequenos?

Talvez ele destrua, talvez não... Sei lá... Vai saber, né...

OK, eu me desviei do assunto. Cale começa a fazer besteiras para impressionar Arbell, e Arbell começa a gostar de Cale, apesar de ter medo de seu jeito taciturno e seu instinto assassino. Como eu disse, Cale deixou de ser quieto faz tempo, e acaba desafiando um general do exército para um duelo sem hesitar. Corta para o próximo capítulo. Minutos antes do duelo, Cale espera, morrendo de medo, suando frio. Mas espere, pensa o leitor, Cale não sente medo! Ele é um assassino treinado, matou cinco guardas de uma vez, por que teria medo de enfrentar um guerreiro sozinho, por mais forte que ele seja? Ah, diz o autor, é que semana passada ele DORMIU COM A GAROTA. Dormiu com ela, se apaixonou e agora teme morrer e perdê-la.

E você me conta isso em meio parágrafo, sr. Paul Hoffman? Se era uma cena tão importante para o desenvolvimento do personagem e da história, por que você não dedicou um capítulo inteiro a ela? E de qualquer forma, não é assim que se constrói um personagem, jogando na cara do leitor o que ele sente e esperando que faça sentido. Construir um perfil psicológico exige uma sutileza que falta em todo esse livro.

Além de personalidades inconstantes e erros grotescos em storytelling, o livro também conta com uma ambientação péssima. Nunca fica claro pro leitor se a história se passa na Idade Média ou em um mundo totalmente diferente, embora uma ou duas vezes um personagem menciona que os holandeses cheiram mal, ou que os noruegueses são trapaceiros. Além disso, além da Fortaleza e da cidade onde Cale vai viver, ficamos sem saber mais nada sobre o mundo, e mesmo esses dois lugares são descritos bem superficialmente. Não ficamos sabendo nem mesmo quem são de verdade os tais Antirredentores que os Redentores dizem enfrentar. Mas essa falta de informação, esse vazio imaginativo tem um motivo muito forte…

Este é o primeiro livro de uma TRILOGIA. Porque não basta extorquir as crianças com literatura ruim. Você tem que extorqui-las várias vezes. Se isso não é uma prova clara de que Paul Hoffman é um explorador que escreveu uma coisa qualquer para financiar seu iate, nada mais é.

PS: O final do livro é interessante. Tem uma batalha bem-narrada e, mais pra frente, uma sacada que me lembrou da resenha do Paulo sobre O Homem do Castelo Alto. Infelizmente, não são dez páginas que vão salvar esse atentado terrorista literário.

PPS: A tradução da Suma de Letras é decente, a capa é mais ou menos, a contracapa é uma desgraça. O que me admira é que o setor editorial tenha aprovado a tradução desse livro. Talvez eu esteja mal-acostumado demais com bons livros e esteja achando que todos os livros no mercado são bons. Fazer o quê?

PPPS: A foto da contracapa foi afanada do blog Botas Batidas. Não conheço a moça e espero que ela não se enfureça muito por eu ter tomado essa liberdade.

8 Respostas para “[LIVRO] A Mão Esquerda de Deus, de Paul Hoffman”

  1. DAIGREON disse

    Cristo,que troço mais mal montado. É um maldito monstro de Frankenstein com partes MAIS podres.

  2. Tallu disse

    Com isso, mantemos a primeira impressão que tivemos do livros muitos meses atras… isso cheira mal!
    Pelo menos não vou perder meu tempo com esse. mas preciso achar tempo pra ler coisas realmente boas… (que Dezembro chegue logo…)
    Alias, falando em Dezembro, várias coisas me vem a mente:
    1) qdo vc vai ler O Segredo e A Batalha? (aka Caça Feitiços 3 e 4)
    2) alguma novidade sobre O Messias de Duna?
    3) vc vai criar coragem e ler As Crônicas de Fogo e Gelo?

  3. EUS disse

    O livro é tão merda que o autor muda até o nome do personagem principal sem perceber. Grande Arara, muito perspicaz, copiou a técnica para a sua resenha (resenha do livro no estilo do livro, high-technique!). No começo da resenha é Cole. A partir do meio vira Cale.
    =D

    Ah, mais um comentário.
    Três dedos lindos os da moça da foto. Três unhas lindas. Esmalte bonito também.

  4. hluiz disse

    Rs. Pelo visto , o desejo de reconhecimento pela crítica permanece , sem reconhecer o que difere da mesmice… Em nenhum momento achei que o autor desejasse seguir o roteiro de Harry Potter, pelo contrário, ele demonstrou algo sujo , onde ninguém gostaria de estar, ou motivar a imaginação e bom preceitos que todos os pais querem que seus filhos sigam. Está claro , que o mundo do livro é algo imaginário, como uma realidade alternativa , com fatos metafóricos com os dados da nossa realidade. O altor nunca quiz ser o Disney querendo transmitir os valores de uma sociedade hipócrita , onde o que é louvável, se torna impraticável na realidade .Eu já sou velho , tenho uma prifissão respeitável(sou médico) e vivo com pessoas humildes cuja realidade se parece muito com os dilemas do livro , diferente das escolhas que os”mocinhos ” de livros tendem a encarar.O autor não desejava , ao meu ver,escrever um livro infanto-juvenil, mas algo juvenil-adulto, no qual os leitores pudessem discordar e criar as próprias opniões, algo que um mundo irreal até favorece.Sinto muito quanto aos puristas ,mas esse tipo de literatura é importante, por dar uma visão diferente , uma perspectiva nova, algo diferente do mocinho poupando o vilão no final, mesmo depois de não ter poupado os seguidores do vilão ( como é o desejo de todos que estão no controle e não querem seu status comprometido com ideais revolucionários), é algo revolucionário e por isso é vítima da críticas daqueles que não desejam mudanças , e que tem como argumento , a comparação com os exemplos que desejam ser seguidos..Mil vezes ler algo novo e incomprendido , que ler a mesma sequencia de eventos considerada como o correto literário, principalmente, por ser a diferença que cria a evolução, mesmo que como uma tentativa, ainda seja cheia de falhas…

  5. hluiz disse

    que site é esse , que não permite um comentário que tenha frases que discordam da opnião do site?

  6. Lobo Cinza disse

    Sinceramente, eu acho que o autor dessa crítica não compreendeu o conteúdo do livro e precisa de mais instrução antes de querer criticar algum livro. Assim como ele criticou o livro dizendo que ele não possui características de um livro infanto-juvenil, eu critico o autor da crítica dizendo que ele não tem argumentos que dão sentido à sua crítica. A literatura atual é tão diversificada que é ridículo afirmar que “A Mão Esquerda de Deus” é um atentado terrorista literário. Paul Hoffman fez certo deixando todo um mistério em torno de Cale e de todo o mundo onde se passa a história, por ser uma trilogia é mais que justificável essa atitude. Extorquir quem compra, acho que não, novamente digo, é uma trilogia e é essencial deixar um clima de dúvida. Vamos esperar todos os três livros chegarem as lojas e ai sim afirmar se há ou não sentido.

  7. Jopodl disse

    Todo livro tem falhas e coisas que as pessoas não gostam ou criticam,porem essa critica feita pelo criador do topico me parece totalmente sem sentido,ao invés de mostrar sua opinião de modo ponderado, tenta ridicularizar o livro em varios momentos dando uma certa impressão de birra ou “raivinha” em relação a obra.

  8. Bia Machado disse

    Nem posso dizer nada sobre o livro, mas acho que meu sexto sentido funcionou, quando pensei em trocar o livro por outro. Ganhei em um sorteio e nem li, rsss… Mas fiquei com dó, de você ter lido “isso”. Aquela foto com as unhas me deixou confusa, fiquei pensando: “Ué… Yuri, mulher? kkkkk” ;p
    É isso aí…

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