[LIVRO] A Connecticut Yankee in the Court of King Arthur, por Mark Twain
Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 19/05/2011
Livro: A Connecticut Yankee in the Court of King Arthur (Um Ianque de Connecticut na Corte do Rei Arthur)
Autor: Mark Twain
Editora: Project Gutenberg
Qual é o livro de ficção científica mais antigo do mundo? Uma pessoa normal não vai saber responder de bate-pronto (porque pessoas normais não lêem), mas um interessado no assunto provavelmente vai mencionar Júlio Verne ou H.G. Wells ou até Edgar Rice Burroughs. Mas quantos deles vão mencionar Mark Twain, mais conhecidos por seus personagens Tom Sawyer e Huckleberry Finn? Tendo lido As Aventuras de Tom Sawyer, foi com certa surpresa que descobri que Mark Twain foi um dos pioneiros do gênero de viagem temporal com “Um Ianque de Connecticut na Corte do Rei Arthur”, esse livro de nome comprido que basicamente descreve todo o enredo e que foi publicado antes do famoso The Time Machine, que eu já resenhei aqui. Como já foi publicado há mais de 80 anos, o livro virou domínio público, indo parar no Projeto Gutenberg – e de graça, até injeção na testa.
Nosso protagonista (que se mantém anônimo por quase todo o livro) relata que estava sendo levado para o hospital quando percebeu que estava na Idade Média, e que o cocheiro que o levava era na verdade um capanga de um lorde que o levava prisioneiro. Assim, sem mais nem menos. Preso nas masmorras de Camelot e prestes a ser decapitado, nosso protagonista decide se aproveitar dos seus conhecimentos do futuro para se passar por mago, e assim consegue escapar da execução. Livre, e com a confiança do rei, nosso protagonista percebe que é a pessoa mais inteligente do mundo. Agora chamado de The Boss, ele inicia uma pequena revolução escondida: cria escolas, fábricas, sistemas telefônicos e o diabo a quatro, convocando os camponeses mais inteligentes que encontra pelo caminho para formarem uma nova civilização. Tudo em segredo, longe dos olhares do clero e da nobreza. Ao mesmo tempo, ele vaga pela Bretanha, desmascarando magos impostores e realizando milagres com seus “feitiços” tecnológicos.
A premissa é um tanto divertida, mas o livro não é tão engraçado quanto aparenta ser. Mark Twain escreveu este livro quando, em sua terra, estava ocorrendo uma espécie de redescoberta dos romances de cavalaria e dos ideais medievais. Ciente de que a Idade Média era horrível e que os romances de cavalaria eram mentiras estúpidas e fantasiosas, esse livro é mais uma crítica social e um protesto. Então O Chefão anda pelo mundo de Camelot comentando como a sociedade é opressiva pro camponês, como os cavaleiros são burros e grossos, como o Rei Arthur está sendo corneado por Lancelot e tudo o mais. Por outro lado, ele não os culpa: o Chefão os vê como crianças que nunca foram educadas, como humanos que mal conseguem elaborar um argumento ou discutir uma idéia, e que é seu dever esclarecê-los. Em alguns pontos, essa crítica acrescenta valor à narrativa; em outros pontos, é repetitiva e entediante. O charme da narrativa de Mark Twain está presente, mas o humor característico do autor pouco se evidencia. Pelo contrário, é até bem sério em alguns pontos, como o Vale dos Santos (um lugar real onde os leprosos e doentes mentais da Grã-Bretanha eram exilados) e o final do livro, onde *SPOILER* O Chefe e alguns soldados matam todos os guerreiros da corte com metralhadoras Gatling, cercas eletrificadas e minas explosivas. *SPOILER*
Vale o livro, especialmente a versão do projeto Gutenberg, por outros motivos. A versão disponível é bastante fiel à versão original publicada pelo autor, e foram mantidas tanto as capas originais (gravadas em couro) quanto as ilustrações das cenas da história. Também foram mantidas as charges políticas, que aparecem entre um capítulo e outro e satirizam a situação da Idade Média. E bom, se o seu livro vale a pena por ter charges políticas do século retrasado, então é porque tem algo de errado nele. Mas acho que é uma questão de preconceito – afinal, era um livro de ficção científica escrito por um autor de aventuras infanto-juvenis. A última coisa que eu iria esperar dele era um tratado sociológico sobre o século VI.
Nota: esse livro já foi adaptado várias vezes para o teatro e a TV. A versão mais familiar para nós é o filme Um Garoto na Corte do Rei Arthur, produzido pela Disney em 1995 e exibido algumas vezes na Sessão da Tarde. Claro que, para fazer o filme, eles tiveram que cortar três quartos do livro, alterar todo o resto e ainda inventar algumas coisas, mas o que importa é a intenção de fazer um filme direcionado para crianças da idade do meu sobrinho (embora, dada a personalidade violenta do meu sobrinho, ele talvez prefira o original). Também é um dos primeiros filmes da Kate Winslet e do Daniel Craig, que depois viraram atores de verdade e foram fazer filmes de verdade.
zaolat disse
Saudações
Se o manolo consegue criar escolas, fábricas, sistemas telefônicos e o diabo a quatro (não sei qual a extensão disso) sozinho, ele tem lá seus méritos.
Yuri 'Arara' Oliveira Petnys disse
Ele era um engenheiro civil no mundo atual, e devemos lembrar que tudo naquela época era relativamente mais simples – telefonia, explosivos, etc.
Dimitria disse
É bacana ver o quanto uma história rende mil outras versões se baseando na mesma.. A história do Rei Artur, então, é uma que sempre me chamou a atenção. Estou lendo agora as Brumas de Avalon, que também traz um lado da história dele, embora com um foco compleeetamente diferente, né.
Dimitria disse
Ah,, e tem um Engenheiro Civil no livro né.. *__*
Rei Duas Vezes « Peças Soltas disse
[...] várias fontes de inspiração: as colecções Os Cinco e Mistério, de Enid Blyton; a novela Um Yankee do Connecticut na Corte do Rei Artur, de Mark Twain; o conto A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, de Mário de Carvalho; os [...]