[LIVRO] O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke
Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 22/02/2011
Autor: Arthur C. Clarke
Editora: Aleph
Arthur C. Clarke é um dos mais renomados autores de ficção científica, além de ser um cientista que efetivamente contribuiu para o avanço tecnológico, especialmente no campo dos satélites e da telecomunicação. Autor de “2001: Uma Odisséia no Espaço” (cujo filme, assim como O Iluminado, é mais obra do Kubrick do que de seus respectivos autores originais), ele também é famoso por cunhar a famosa frase: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Mas “O Fim da Infância”, o primeiro livro do autor publicado pela Aleph, talvez não tenha sido a melhor escolha para o portfólio.
Em algum momento dos anos 60, pouco antes do início da corrida espacial, grandes discos voadores surgem sobre as maiores cidades do planeta, impondo uma ditadura pacífica e inaugurando uma nova era de paz no mundo. Sob o olhar atento do Supervisor Karellan, o alien “encarregado” de cuidar da Terra, as guerras são suprimidas e a miséria é eliminada. Isso provoca um sentimento generalizado de conformidade nas pessoas, incorrendo na morte da arte e no fim dos avanços tecnologicos. As religiões também desaparecem: afinal, por que rezar para deuses imaginários se os aliens já cuidam da humanidade?
Cinquenta anos depois, os Supervisores se revelam. Com chifres, pés de bode, e asas de couro, eles são idênticos ao Diabo da mitologia cristã, mas humano algum se espanta – afinal, com a religião erradicada há tanto tempo, ninguém mais se lembra desses contos de fada. Com o passar do livro, a verdadeira missão dos supervisores é revelada: orientar a humanidade a dar o próximo salto na escala evolucionária, tornando-se seres com incríveis poderes psíquicos, que desnecessitam de corpos físicos para sobreviverem. Eles então se uniriam à grande Mente do universo, chefe da raça dos Supervisores, que já agregou milhares de planetas com destinos similares.
Esse é o enredo do livro. Faltam-lhe personagens principais marcantes, tensão narrativa, dilemas morais e muito do que se espera (ou ao menos que eu espero) de um livro bom. Ele possui sim alguns cenários interessantes, como a viagem de um humano clandestino ao planeta dos Supervisores, mas esse cenário fantástico se resume a um capítulo. Ao atravessar mais de um século de mudanças culturais e tecnologicas na Terra, é óbvio que ela sofreria diversas mudanças, mas Clarke não consegue inseri-las de modo orgânico na narrativa. Ao invés disso, capítulos inteiros são dedicados à mostrar o que mudou de uma era a outra, assemelhando-se mais a uma aula (ruim) de história do que a um romance.
Mas acho que o ponto mais cáustico do livro é a maneira com que o autor trata a ciência. Além de cair na velha armadilha dos autores de ficção científica de criar mil-e-um instrumentos mirabolantes e sem propósito nenhum apenas para entreter os leitores mais jovens (algo como uma Síndrome de Jetsons), alguns pontos MUITO importantes são relevados. Ao indagar a um Supervisor se eles haviam feito contato anterior com os humanos (explicando por que nos lembrávamos do Diabo), o Supervisor simplesmente responde que o contato entre as duas raças será tão drástico que a “memória racial” ficou marcada profundamente e influenciou nossos antecessores, como um déjà vu. Vocês se convenceram? Eu não.
Acho que a única coisa que se salve no livro é a mensagem que ele tenta transmitir, e que ainda assim é muito incerta. Algo entre “O futuro da humanidade é se unir num só indivíduo rumo a um destino de paz e glória” e “Há um poder supremo habitando a galáxia que eventualmente vai nos devorar“. Clarke descreveu um futuro em que o destino não está mais em nossas mãos, mas sim entregue à forças com desígnios e vontades próprias. E diferentemente de outras distopias famosas, ele não oferece nem a menor faísca de esperança. Indubitavelmente original.
O livro inspirou bandas famosas, como o Pink Floyd, e eu não duvido que Yoshiyuki Tomino tenha se inspirado nele para montar a sequência final de Ideon. Mas a verdade é que, dado o histórico do autor, eu esperava um romance de ficção científica, e não encontrei elementos de romance, muito menos elementos científicos na história. E, para mim, qualquer livro de ficção científica com ciência insuficiente é indistinguível dos livros esotéricos.
(PS: eu ia falar que O Fim da Infância é tão ruim quanto os livros de ficção científica do L. Ron Hubbard, mas decidi não falar porque tenho medo dos cientologistas.)


Muad'dib disse
U mad? O Fim da Infância é maravilhoso. Ele não é um livro qualquer, pra mim tem toda uma filosofia por trás de simples coisas que acontecem no livro. É divertido, interessante e o modo como os aliens trata os humanos é genial. É um dos meus preferidos do Clarke.
Yuri 'Arara' Oliveira Petnys disse
Bom, eu não achei divertido. Interessante, um pouco. Também não vi nada de especial no relacionamento humanos-aliens.
Ele certamente não é um livro qualquer, porque qualquer livro se esforçaria para manter uma narrativa envolvente e cativante, enquanto O Fim da Infância nem tenta.
Talvez eu não tenha entendido a magnificência da obra. Mas o tempo todo eu me senti lendo um livro espírita mal-escrito.
Tallu disse
O que podemos pensar disso é: qual a relação deste livro com famosas obras cinematográficas conhecidas que mostram relações humanos-alies, como Distrito 9, ET ou até mesmo o divertido MIB?
Joao Renato disse
A série V parece muito com esta história e é horrivel.
Yuri 'Arara' Oliveira Petnys disse
Acertou em cheio, João. “V” é baseado em “O Fim da Infância”.
Daigreon disse
Eu li isso e achei lerdaço,foram 9 cagadas pra terminar. Te falar um troço,só não foi pior do que quando eu li Moby Dick.
[LIVRO] O Fim da Infância « Caixa Cinza disse
[...] ao ponto: não quero fazer essa resenha. Se quiser encontrar uma, o Arara fez uma resenha que não foge muito do que a que eu faria. Mas então para não ter nada de novo, vou fazer a [...]