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[LIVRO] Gaijin, de James Clavell

Publicado por Yuri 'Arara' Oliveira Petnys em 28/04/2010

Livro: Gaijin (The Epic Novel of the Birth of Modern Japan)

Autor: James Clavell

Editora: Bantam Dell

No post anterior, disse que Anno Drácula, embora um romance histórico, pouco se preocupava em envolver o leitor com a ambientação ou os personagens, valendo-se de uma trama crua e de cenas chocantes para entreter. Curiosamente, Anno Drácula foi uma pausa que tomei no meio da leitura de Gaijin, uma obra que, embora pertença ao mesmo gênero literário, é totalmente diferente do desastre vampiresco mencionado.

Japão, 1862. O país vive a era Bakumatsu, com o declínio do xogunato, grupo detentor do poder político. As províncias de Choshu, Satsuma e Tosa começam a se rebelar contra o governo, tensões políticas surgem entre os próprios membros do conselho supremo, e um grupo de ronins se unem em segredo para devolver o poder ao Imperador, derrubar o xogunato e expulsar os gaijin (estrangeiros). A história principal se inicia na colônia britânica de Yokohama, a sul de Yedo/Tóquio, quando quatro estrangeiros são atacados por samurais de Satsuma, causando a morte de um deles e iniciando uma série de batalhas políticas entre o representante da Coroa Britânica e os líderes do xogunato.

Yokohama, em 1880

Em Gaijin, várias sagas ocorrem concomitantemente: Malcolm Struan, o próximo na linha de sucessão da Struan’s Company, é obrigado a enfrentar sua própria mãe Tess pelo amor de Angelique Richaud, uma francesa com um passado obscuro; Jamie McFay, braço-direito de Malcolm, dividido entre a noiva que deixou no Reino Unido e sua nova concubina nipônica, precisa desesperadamente encontrar maneiras de fazer a filial do Japão prosperar e impedir que a Brock & Sons destrua a Casa Nobre de vez; Sir William, encarregado da colônia japonesa, e os problemas políticos que surgem a todo momento nessa época conturbada; Hiraga, um ronin dedicado ao sonnō-jōi que acaba se infiltrando em Yokohama por acaso; Yoshi Toranaga, herdeiro legítimo do clã Toranaga que busca uma maneira de evitar que o Japão seja dominado pelos ingleses, a exemplo do que aconteceu na China e na Índia… O livro trata disso tudo e muito, MUITO mais. Literalmente dezenas de personagens povoam a obra, cada um com sua história, seus dilemas e planos escusos, suas personalidades únicas.

James Clavell é um mestre de enredo: o mundo de Gai-Jin é tão rico e dinâmico que não lhe falta material para criar tramas e sub-tramas, em tantos níveis quanto lhe é possível, produzindo uma história complexa, energética, cativante. Seu cuidado pelos detalhes, como ao descrever as vestimentas de Angelique, ou ao emular em texto os mais diferentes sotaques dos habitantes de Yokohama, deixa o texto, por assim dizer, saboroso. Infelizmente, sua maior qualidade é também seu maior defeito: de tantos acontecimentos, meu volume de Gai-Jin possui mais de 1200 páginas (e, por isso, recuso-me a chamá-lo de pocket), e é uma leitura imensa, até cansativa por vezes. Clavell também possui um certo problema para escrever finais: tanto em Gai-Jin quanto em Shogun, o leitor tem a sensação que o livro acaba repentinamente, sem uma conclusão de facto.

Gaijin é uma das seis obras que compõem a Saga Asiática, um conjunto de obras que trata de contar períodos da história da Ásia e da Struan’s, a Casa Nobre. Então o leitor de Gaijin não deve se surpreender ao ver alguns personagens de Tai-Pan ou de Shogun reaparecendo, e fatos de livros anteriores refletindo no mundo atual. Além disso, os acontecimentos principais de Gai-Jin são baseados em fatos reais, como o incidente de Kanagawa que inicia o livro e os bombardeios no estreito de Shimonoseki.

Moral da história: leiam Gai-Jin, ou ao menos um dos livros da Saga Asiática. Eu poderia passar mais alguns parágrafos falando do quão magníficas e tocantes são as obras de Clavell, de como ele consegue explorar o modo de pensar do asiático, de sua paixão pela navegação, mas acho que, se não os incitei a tentar ler Gai-Jin com 600 palavras, não serão 1200 que conseguirão.

E diferentemente de Clavell, eu sei quando parar.

PS: outro review não-livresco em breve.

8 Respostas para “[LIVRO] Gaijin, de James Clavell”

  1. Filipe Lima disse

    Deve ser interessante. Recomendo que tu leia “Shike”, de Rober Shea (2 volumes). A linha é a mesma, mas o período é o que envolve as tentativas de invasão mongóis e da guerra Minamoto x Taira e tal.
    Livro é legal, só que deve ser difícil de encontrar em pt-br pra vender, embora eu tenha lido na biblioteca da facul…
    Tá em Creative Commons aqui: http://bobshea.net/shike.html

  2. onmitsu disse

    Tenatarei ler esse livro. Parece bem o tipo de narrativa que eu gosto.

    Bela descrição, excelente texto.
    Keep up the good work!

    FlameHaze

  3. Tallu disse

    Finalmente vc conseguiu acaber essa imensidão de livro. UFA!
    Agora só falta o dito Turbilhão né. Iremos achar…

  4. Falleco disse

    Coeh! James Clavel é foda, mas realmente o final de Shogun foi meio broxante.

    Quando eu terminar Taipan (uhuhuuh) quem sabe. Ainda pretendo ler toda a saga asiática!

  5. EUS disse

    Pare de falar bem de James Clavell. Quero ler essa bosta aí.

    Pelo que você diz no texto e pelo que já conversamos sobre Clavell, o cara realmente manda bem no enredo. Além disso, aquela história sobre os personagens de diferentes nacionalidades falarem em estilos diferentes, ainda que a obra seja (toda) em inglês, me causa mais vontade ainda de ler. Não é tão simples quanto parece fazer isso. Explicitar paulistês, carioquês, mineirês e baianês é uma coisa; explicitar como alemães, franceses, chineses, japoneses, entre outros, se expressam em português, sem cair em estereótipos (do tipo que alemão sempre erra o gênero do artigo e japonês não conjuga o verbo e diz ‘né’ no final) é ouuuutra história. =P

    Falei demais.
    Valeu por apresentar mais uma obra!

  6. apparecda disse

    Não li gai-jin, não consta nas informações que tive, como pertencendo à “saga asiática”. Vou procurar pois li os outros cinco e a lista que havia neles não mencionava gai-jin.Para mim eram apenas cinco.
    Estou interessada na resposta ao meu comentário.
    Obrigada

    • Oi, Apparecida!

      Os livros da Saga Asiática são cinco, mesmo: Tai-Pan, Gai-Jin, Xogum, Turbilhão e Casa Nobre. É possível encontrar edições antigas do livro no MercadoLivre e em sebos!

      • cida vinagre disse

        O livro que li como da saga asiática foi Xanghi, achei bem diferente dos outrro e sem ligação. Agora sei que são cinco e Gai-jin, eu não tenho, quero ver se acho. Adorei todos da saga.
        Como não me lembro quando escrevi esta pergunta, acho que sua resposta foi para mim. Aguardo confirmação e agradeço muito esta atenção que me deram. Cida Vinagre

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